O Globo Megazine, Adriana Barsotti, 11/set
Expansão econômica aquece mercado imobiliário e faz aumentar procura por engenheiros civis, mas ainda faltam profissionais bem preparados
Depois de ficar fora, durante muitos anos, daquelas listas que indicam as profissões em alta no mercado de trabalho, a engenharia civil volta a ganhar terreno. Graças ao reaquecimento da economia, a construção civil cresceu em todo o país e, conseqüentemente, a demanda por profissionais especializados. Mas, por causa da baixa procura pelo curso superior, nas duas últimas décadas, faltam engenheiros civis para ocupar as vagas que já estão abertas e as que estarão disponíveis nos próximos anos.
Rara quem duvida da previsão otimista, especialistas garantem que seu alicerce é firme. Estima-se, por exemplo, que o mercado imobiliário crescerá acima da média da economia, cuja taxa este ano deve ser de aproximadamente 5%. Além disso, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, prevê investimentos de mais de R$ 9 bilhões em obras de infra-estrutura no país, em 2008.
O boom no mercado imobiliário teve início ano passado, segundo Marcelo Parente, conselheiro da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi). Mas ele conta que, mesmo tendo motivos de sobra para comemorar, os representantes de construtoras reclamam da falta de profissionais bem preparados.
- Novas engenharias surgiram, além de outras carreiras mais atraentes. O mercado imobiliário ficou em baixa durante anos, por causa da inflação. Depois, vieram os juros altos. A partir do momento em que os juros caíram, cresceram as possibilidades de financiamento bancário, tanto para as construtoras quanto para os consumidores - diz Parente, diretor da Construtora Santa Isabel.
Apesar de mais baixas, as taxas de juros no país ainda são elevadas e, por isso, não há perigo de ocorrer uma bolha no setor, dizem os especialistas. Como o crescimento será gradativo, o mercado torna-se atraente para quem pretende começar a faculdade em 2008.
Quem já está na faculdade ou acaba de concluir o curso, encontra boas oportunidades de estágio e emprego. Mas, apesar de haver muitas vagas para poucos candidatos, as empresas continuam seletivas. Fátima Sanchez, especialista em recursos humanos e gerente de desenvolvimento da Personal Service, conta que o profissional deve investir em sua formação:
- Em qualquer área, destaca-se quem é multifuncional. O engenheiro civil deve dominar a informática e deve entender sobre meio ambiente, pois a fiscalização na área da construção civil está mais rigorosa.
O apagão aéreo também traz boas perspectivas para os engenheiros civis. Afinal, quem irá construir e ampliar aeroportos? No orçamento 2008 do PAC, estão previstos R$ 985 milhões para este fim.
- O engenheiro civil pode planejar, executar, operar e fazer a manutenção dos aeroportos. Além disso, para que o país cresça, é necessário construir estradas, portos, investir em habitação, saneamento básico - enumera Assed Haddad, vice-coordenador do curso de engenharia civil da Escola Politécnica da ÜFRJ, que aponta outras áreas em expansão.
'Na faculdade, percebi que o mercado poderia crescer'
Quando concluir o curso de engenharia civil na Universidade Santa Úrsula, no fim do ano que vem, Marco Uchôa sairá da faculdade com bastante experiência profissional. Além de estagiar atualmente na Construtora Santa Isabel, ele também trabalha como perito judicial:
- Fiz curso de extensão em perícia, pois percebi que esse é um bom mercado para o engenheiro. Se um prédio vira alvo de uma briga na Justiça, por exemplo, o juiz quer saber quanto vale, saber suas condições de uso, como está a estrutura. Quem faz isso é um perito - conta Marco, que também fez especialização em perícia ambiental.
- A legalização de um lixão depende do laudo de um perito em meio ambiente.
Como estagiário da construtora, Marco auxilia os engenheiros que trabalham no futuro teatro do Shopping Leblon.
- Quando entrei na faculdade, já tinha uma idéia de que o mercado poderia crescer. Acho que terei boas oportunidades daqui para frente.
'Engenheiros da minha geração terão muitas oportunidades'
Livia Lima Duarte queria fazer especialização em estruturas e fundações. Mas, logo no primeiro período do curso de engenharia civil, a aluna da Escola Politécnica da UFRJ percebeu que cálculo não era seu forte. Ela queria mesmo botar a mão na massa:
- Fiz um estágio na área de cálculo estrutural e não me adaptei. Como havia muitas vagas para estágio em obras, consegui uma oportunidade. Adorei a experiência e resolvi mudar a ênfase do curso para construção civil. Com certeza, os engenheiros da minha geração vão ter muitas oportunidades de trabalho - diz Livia, que está no 9° período da faculdade e faz estágio na RJZ Cyrela, num canteiro de obras de um condomínio na Barra.
- A maioria dos funcionários é homem. Tem aquelas brincadeiras de sempre, por eu ser mulher, mas não sou discriminada. Faço tudo o que um homem faria. Não pode ter medo, nem frescura.
De olho no crescimento do mercado
Vaneli Benício é um exemplo de profissional que levou em consideração suas habilidades na escolha da carreira. Para sorte dele, a área em questão é a de construção civil.
- Sou apaixonado por esta profissão. Acho a construção fascinante. Fiz curso técnico em edificações e, desde então, trabalho com isso. Quando estava no curso técnico, as tendências para o mercado eram desfavoráveis. Mas insisti, pois era o que queria fazer. Há dois anos, percebi que o curso superior aumentaria minhas chances de crescer e, então, entrei para a faculdade de engenharia civil - diz Vaneli, que é aluno da Universidade Gama Filho e trabalha como técnico em edificações numa construtora.
Procura por curso cresce
Por causa do crescimento do setor imobiliário e da promessa do governo federal de investir em infra-estrutura no país, as universidades do Rio já estão prevendo um aumento na procura pelos cursos de engenharia civil, que é oferecido em quatro instituições públicas no estado. O mais recente foi criado este ano, pelo Cefet-RJ.
- Se o mercado cresce e aumenta a procura pela carreira, conseqüente-mente melhora o nível dos alunos matriculados. Por outro lado, a universidade também exigirá mais dos estudantes, fará um controle rígido das horas de estágio e da presença em sala de aula. Por mais que seja importante o aprendizado prático, ele precisa ter boa base teórica - diz Claudia Gentil, coordenadora do curso da graduação em engenharia civil da UFE.
Nos últimos anos, o curso da federal fluminense tem sido o mais disputado, com uma média de sete candidatos para cada vaga de engenha ria civil. Ano passado, a UFRJ teve 4,3 inscritos por vaga na carreira. A partir do vestibular 2008, a classificação para os cursos de engenharia da federal do Rio será pela nota, e não mais pela opção de carreira. O candidato terá que optar por "engenharia" e indicar, em ordem de preferência, quais são as suas subopções. Ao todo, a UFRJ oferece 12 habilitações em engenharia.
- A entrada no curso nem sempre significa que teremos o mesmo número de formandos, pois o aluno pode entrar pela civil e depois mudar. Mas hoje percebo que muitos entram em outras áreas e acabam optando pela civil - diz Assed Haddad, vice-coordenador da graduação em engenharia civil da Escola Politécnica da UFRJ.
No Cefet-RJ, o curso foi oferecido pela primeira vez no concurso de inverno deste ano. Sua proposta vai ao encontro das necessidades do Programa de Aceleração, pois pretende formar profissionais capazes, por exemplo, de propor soluções para o processo de favelização que, em geral, vem acompanhado de problemas como abastecimento de água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos. Segundo os professores do Cefet-RJ, o engenheiro é o profissional estratégico para qualquer projeto de desenvolvimento.